"Porque é que cada um de nós não vê exactamente o que o outro vê? O que não poupávamos de saliva. De armas, de saúde. De dinheiro que poderia servir para outras coisas que não alugar automóveis de luxo para os administradores da Carris, ou trazer cá os altos comandos da Nato.
Já viram o que se poupava em copos partidos naquela tasca em frente? Nem tínhamos que ir às urnas antecipadamente. Bastava concordarmos com José Sócrates. Simples. Mas não, temos de “conflituar” uns com os outros numa eterna valsa peçonhenta em que o que vale é mesmo trincar os pés ao parceiro.
Desde os grandes conflitos bélicos às escaramuças familiares. Parece que dos conflitos nasce a paz, mas pode muito bem ser sol de pouca dura, porque não sabemos viver em paz. Que piada tinha este mundo se não existisse um conflito israelo-árabe? Ou a minha vizinha não desse umas estaladas no marido? Nenhuma, digo-vos. Quando ouço as candidatas a miss Mundo defenderem a paz, apetece-me bater-lhes.
Essa palavra devia ser banida dos dicionários. A paz não é para os humanos. É para as pedras da calçada que são espezinhadas, atropeladas e não ripostam. Contudo, é desgastante não se estar em paz. Sobretudo quando o inimigo somos nós mesmos.
Há quem se decida pelo suicídio e assim resolva dois problemas de uma vez. Mas imaginem que toda a gente acolhia essa hipótese. É preferível não imaginar, não é um espectáculo agradável de se pensar. Não me considero conflituoso, mas podem muito bem considerar-me assim. E olharem para mim como se olhassem para um cão sarnento. Ou serei um cão sarnento e ainda não dei por isso?
Às vezes, gostava de me mostrar por dentro aos outros e dizer-lhes : “vejam, é assim que eu sou. Vêem como se enganaram?” Porém, quase sempre leva tempo e muitas vezes não há tempo. E quando gostamos dos outros, um segundo é tempo demais."
In AO de 02 de Abril.
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