"Enquanto o resto do mundo anda ocupado a surpreender-se com evidências, os portugueses mantêm uma fleuma imperturbável. Aqui, estamos acostumados a que nem o absolutamente imprevisível cause sobressalto. As próximas eleições disputam-se sobretudo entre um homem que garantiu que não governaria com o FMI e agora se candidata a governar com o FMI, e outro que não apoiou o PEC 4 por ultrapassar o limite de sacrifícios que se podem exigir aos portugueses e agora propõe sacrifícios adicionais aos portugueses. O normal.
O conteúdo da campanha será ainda mais previsível. Tomei a liberdade de redigir, para ilustração de todos os eleitores, uma minuta do guião dos tempos de antena de PS e PSD. Não andará longe disto: "O acordo com a troika tem aspetos muito negativos por culpa da ação irresponsável do _____, mas acaba por ser muito melhor do que esperávamos devido ao extraordinário talento negocial e amor patriótico do _____." Os espaços em branco serão preenchidos alternadamente pelas siglas PS e PSD, consoante o partido que esteja nessa altura a comunicar a sua ausência de novas propostas ao bom povo. E, no final, o bom povo preencherá determinado quadradinho branco com uma cruzinha, escolha que também costuma fazer alternadamente nas mesmas siglas. Ser português talvez não seja o melhor destino, mas não há dúvida de que é muito sossegado."
Muito bem dito. Sim senhor! RIP no seu melhor, retirado do sitio do costume.
Sem comentários:
Enviar um comentário