"Se soubéssemos o que sabemos hoje, Otelo!"
por Daniel Oliveira
Otelo Saraiva de Carvalho presenteou-nos com mais uma das suas frases de efeito: se soubesse o que sabe hoje não teria feito o 25 de Abril. Três coisas rápidas:
A primeira: o 25 de Abril não foi uma prenda de Otelo aos portugueses. Foi obra de muitos outros militares. E foi obra dos portugueses. A democracia não nasceu num dia. Foi construída. E foi construida e defendida por nós. Se ele não tivesse comandado as forças revolucionárias outros o fariam no lugar dele.
A segunda: isto não acabou assim. No meio, erguemos um serviço nacional de saúde que, com todos os seus defeitos, até está entre os melhores do mundo; alfabetizámos, construísmo a escola pública, democratizamos o ensino superior; garantimos uma segurança social universal; acabámos com a censura; deixámos de ter presos políticos; abrimos Portugal ao Mundo; e, para o mal ou para o bem, defendemos sempre a nossa democracia, com liberdade e pluralismo. Se Otelo faz um balanço negativo, ele lá saberá o que esperava da revolução.
A terceira: não me parece que se a revolução não tivesse acontecido estariamos melhor neste momento. Que tenha de haver gente a explicar isto a Otelo Saraiva de Carvalho só demonstra que o que lhe sobrou em coragem sempre lhe faltou em inteligência política, como se foi notando pelo seu percurso tão repleto de asneiras.
A ser verdade este súbito sentimento de Otelo, talvez seja altura de abandonar a parcimónia com que nos dirigimos a ele e dizermos de uma vez por todas o que muitos de nós sentimos demasiadas vezes: se soubéssemos que Otelo seria o que foi depois da revolução também teríamos preferido que tivesse sido outro a comandar as operações no dia 25 de Abril de 1974. Não precisávamos de ir longe. Bastava procurar entre alguns dos militares que o acompanharam naquele dia. De Salgueiro Maia a Melo Antunes, nunca faltou quem provasse ter muito mais sabedoria com muito menos fanfarronice
Publicado no Expresso Online.
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