I rest my case #94 - "Mais do que acasalar!"

“O que deverá caracterizar a chamada família hoje em dia, é a liberdade em relação à diversidade dos seus componentes. A configuração e estrutura da família mudaram e podem mudar, mas os princípios éticos pela qual ela se deverá reger (cuidar e prover os seus elementos e promover vínculos afectivos entre os mesmos), não se alteraram nem têm que se alterar. Os especialistas na última década têm vindo a demonstrar que aquilo que realmente é nocivo para as crianças não é o formato e estrutura da família, mas os conflitos intra-familiares e o facto dos pais sejam eles biológicos ou adoptivos ou figuras de substituição, não desempenharem convenientemente o seu papel de cuidar e de prover um desenvolvimento harmonioso nestas.

Novos modelos de família têm assim nos últimos anos aprendido a viver de uma forma coerente, famílias monoparentais, famílias com segundos casamentos fazendo assim com que mães solteiras, pais solteiros, madrastas, padrastos sejam figuras usuais nas vidas de todos nós e participem de uma forma saudável e estável na existência e desenvolvimento das famílias.

Acreditando no conceito de que “ família é a unidade básica da sociedade formada por indivíduos com ancestrais em comum ou ligados por laços afectivos” e no conceito de conjugalidade, que implica partilha fortalecida por vínculos afectivos tais como amor, ternura, companheirismo, projecto em comum, não será difícil aceitar este novo formato que passou a ser uma realidade no nosso país. Em termos de desenvolvimento e ciclo de vida do casal dizem-nos as investigações que esta aprendizagem que o contacto íntimo proporciona, esta característica de unidade é o que verdadeiramente fortalece a cumplicidade entre duas pessoas que constituem um casal e não o formato social com que ele se apresenta.

Muitas pessoas que se opõe aos casamentos entre homossexuais utilizam o argumento da incapacidade de estes casais se reproduzirem, uma vez que a noção de casal se liga ainda muito ao conceito biológico e das espécies. Então os casais de heterossexuais que se casam e não exercem esta função reprodutiva seja por opção, seja por impossibilidade, não deverão ser considerados casais? Família? Dever-lhes-ia ser vedado o direito de se casarem?
Espero que a alteração da Lei com consequente alteração das mentalidades e do conceito e finalidade do casal e família, afastando-se do paradigma biológico, para além de responder aos direitos das pessoas homossexuais, venha também retirar a pressão social sobre os casais de heterossexuais sem filhos e alterar as representações sociais que os definem como unidades incompletas e deficitárias e que expressões populares referindo-se a estes como “Figueiras do diabo”, “Troncos Ocos”, ainda usuais, sejam abolidas.

Apesar de nos orgulharmos da nossa evolução enquanto espécie e nível de diferenciação face às outras, teimamos em nos organizar exclusivamente segundo as leis biológicas e em impor sobre nós a finalidade única de perpetuarmos a espécie.”

A psicóloga Suzete Frias, na sua crónica semanal no Jornal Diário.

3 comentários:

Anónimo disse...

Excelente Texto no Jornal Diário - Crónica Semanal de JNAS, A Tirania dos Afectos: http://www.jornaldiario.com/ver_colunista.php?id=4

K2ou3 disse...

".Apesar de nos orgulharmos da nossa evolução enquanto espécie e nível de diferenciação face às outras, ""teimamos em nos organizar exclusivamente segundo as leis biológicas e em impor sobre nós a finalidade única de perpetuarmos a espécie""."

A humanidade tem estado errada desde os primórdios dos tempos.
Nada como apostar na sua extinção pelo "progresso civilizacional" na sua infertilidade prática.
Com coisas destas, secalhar, até era melhor.

Anónimo disse...

Ora aqui está a solução para os casais estéreis. Virem para o outro lado e está resolvido o problema e o contribuinte deixa de pagar os caríssimos tratamentos de fertilidade. É justo pagar por aqueles que dão tiros de pólvora seca?