"Vamos lá ver se nos entendemos"
"Eu falo com conhecimento de causa, por isso, argumentos de: "Ah, só quem está lá é que sabe!", "Ah, vocês não percebem o trabalho que se tem!" etc, não colam comigo.
Eu já fui professora durante 5 anos. Já estive em 4 escolas diferentes, em 2 ilhas diferentes.
Eu entendo todo o trabalho que se tem fora do horário lectivo, eu vivi na pele o tempo passado a preparar aulas, a assistir reuniões longas a falar de coisas úteis e inúteis, eu vivi na pele as interrupções lectivas, as férias de verão de mais de 25 dias úteis, os testes para corrigir, as provas de aferição para corrigir, a imensidade de papéis para preencher e entregar dentro do prazo.
Agora não sou professora. Trabalho num emprego de 7 horas diárias, sem toques de 45 em 45 minutos ou de 90 em 90 mas pico o ponto 4 vezes ao dia. Posso ausentar-me para ir à casa de banho ou para comer um snack sem que tenha de chamar um auxiliar que me fique a vigiar a secretária.
Deixei o ensino por opção, tal como foi minha opção ensinar. Nunca quis fazê-lo a minha vida toda, apesar da minha paixão por ensinar. Adorava os meus alunos e eles (pelo menos a maioria) adoravam-me, corriam pelos corredores atrás de mim, pediam-me que desse todas as outras disciplinas, pediam-me que fosse a mãe deles, ou uma tia ou alguém da família deles. Pelas costas deviam desejar caissem pelas escadas abaixo, coisa que já me aconteceu numa escola quando andava de muletas por um jogo de futebol que não correu muito bem...
Deixei isso tudo, pela instabilidade do emprego, pela indisciplina nas escolas, pela ausência dos pais no percurso dos alunos, pela cumplicidade com que todos os intervenientes (conselho executivo, psicólogos, encarregados de educação e professores) partilham na falta de disciplina e educação.
Hoje os meus problemas são outros, problemas que não passam pelo sentimento de impotência e de frustração por não conseguir cumprir a minha principal função: ensinar.
Relativamente aos horários e às interrupções lectivas, eram o melhor de tudo. Na altura, 22 horas lectivas, 13 horas não lectivas semanais.
Não me digam que as 13 horas não lectivas não chegam para o restante trabalho que é necessário fazer. Não me digam que todos os dias precisam bem mais do que 2 a 3 horas para preparar o dia seguinte.
Claro que há excepções! Claro que existem os perfeccionistas! Claro que há reuniões que duram mais que o necessário, fora as reuniões de avaliação.
Mas, meus senhores e minhas senhoras, 3 semanas no Natal, 2 semanas na Páscoa e quase 2 meses no verão não compensam em larga escala umas horitas a mais?
Vá, não se queixem tanto do trabalho que a minha pessoa não entende. Queixem-se antes da indisciplina, da má educação, da conivência de todos em relação a isso que põe em risco o trabalho de qualquer professor. Isso sim é motivo de preocupação, isso sim é motivo para todos quererem deixar a profissão. O horário, os dias de interrupções lectivas, os dias de férias, isso sim é muito bom, isso sim é um privilégio de apenas uma classe laboral.
Agora, se trocava o meu emprego das 7 horas diárias por um emprego de menos horas e mais dias de férias numa escola qualquer? Não. Só se fosse uma universidade onde podemos mandar calar e eles calam-se e onde sabem, minimamente, como se sentar numa cadeira.
Vou matando saudades do ensino, dando formação e algumas aulas aqui e ali de curta duração e sempre a adultos.
P.S. E convençam-se que não estão na única profissão que leva trabalho para casa. Tantos e tantos que para conseguirem ter o trabalho a horas, por condicionantes especiais ou temporárias, levam o seu trabalhinho para casa não ganhando mais do que isso e já depois de ter feito as 7h..."
Tudo isso retirado da minha vizinha fashion Chá Verde.
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