I rest my case #120

"Não sendo um homem consensual, não o foi também na sua morte. Mas vale a pena perceber as diferenças entre a forma como Portugal e Espanha lidaram com isso.

Em Espanha, o presidente do governo não se ficou pelas obrigações protocolares. Escreveu um belíssimo texto no El Pais sobre o autor. Só que não foi o único. O católico conservador de direita, Mariano Rajoy, também deixou a sua mensagem elogiosa que foi para lá da mera formalidade. O rei manifestou a sua tristeza. Em Lanzarote o povo anónimo dedicou-se a leituras espontâneas da sua obra. Em Lisboa, vários ministros espanhóis, incluindo a número dois do governo, marcaram presença.

Em Portugal, o campo ideológico oposto a Saramago não se fez representar no funeral. Não esteve lá nem Pedro Passos Coelho, nem Paulo Portas. Cavaco Silva fez o que fez e o que fez seria uma impossibilidade em Espanha. Foram ditas frases de circunstância, mas nos fora de debate, na blogosfera e nas caixas de comentários dos jornais desaguaram insultos, ressentimento e mesquinhas acusações de gente que se dizendo patriota dedica a sua energia a cuspir na sua própria cultura.

Em Espanha, o homem polémico foi incorporado como fazendo parte da cultura espanhola. Como um seu. “Os espanhóis choram hoje Saramago como um dos nossos, porque sempre o sentimos a nosso lado”, escreveu Zapatero a Pilar del Rio.

Em Portugal, Saramago foi linha de fronteira e renegado por parte do País. Com o pequeno pormenor do homem em causa ser português, escrever em português e ter regressado na sua morte a terra portuguesa.

A forma como Espanha lida com o que tem, mesmo que o tenha por adopção, e Portugal lida com a sua cultura ajuda a explicar porque uma é uma potência cultural e o outro apenas um país cheio de talentos que acabam, mais tarde ou mais cedo, por partir ou viver próximos da indigência.

Os nossos escritores são tratados como adereço para citações em discursos e os nossos criadores como “subsidiodependentes”. Somos um país pequeno, onde toda a gente se conhece. Isso ajuda a explicar a nossa mesquinhez, em que o ressentimento conta mais do que o orgulho. É normal. O que é estranho é que façamos questão em não deixar de ser uma aldeia."

Daniel Oliveira in Arrastão.

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