Hipoglicemia - O Senhor Renato, a praia das Milícias e a Câmara

O senhor Renato Rodrigues Borges, com os seus 84 anos de idade, se não era, certamente, fazia parte das pessoas mais idosas da freguesia de S. Roque. Era um privilegiado, tinha a praia das Milícias e o mar como uma extensão do seu quintal, era um acérrimo defensor daquela zona balnear e da sua, nossa, freguesia. Agradecia a Deus e ao mar a saúde de que ainda desfrutava.
Foi assim que um dia destes, ao aceitar o convite da Primavera e do bom tempo que nos tem proporcionado, que dei comigo na Praia das Milícias, em frente à casa do senhor Renato, a pensar o quanto era agradável estar um bocadinho com ele na praia e ouvir as suas histórias de vida, as suas anedotas.

Na defesa da sua praia, gabava-se de, em tempos ter dito cara a cara ao Capitão do Porto, “ao autorizar que retirem areia aqui da baía, estão a levar toda a areia da minha praia”. Elogiava a Câmara de Ponta Delgada pelo bom trabalho realizado naquela zona, nunca percebeu, nem nós, o abandono de um pequeno recanto, que se situa nas traseiras da moradia da Rua das Areias, n.º 9, próximo da sua casa, onde estão instaladas infraestruturas de saneamento básico, local propício ao ajuntamento de lixo, ratos e a cheiros nauseabundos, pondo em causa todo o bom trabalho de limpeza que ali é realizado e dando uma má imagem a quem frequenta aquele local. Solução fácil: seis sacos de cimento, brita e areia.

Já era velha esta sua reivindicação. “Sr. César, o senhor que escreve para o jornal fale nisto.” Pela amizade e respeito que me merecia falei. Primeiro e em 16 de Agosto de 2006 expus por e-mail o assunto ao Gabinete do Munícipe, mais tarde, também por e-mail, à senhora Presidente da Câmara que respondeu em princípios de Setembro, informando que o assunto estava encaminhado e prometendo o seu próprio acompanhamento. Como nada foi feito voltei a levantar o assunto aqui neste Jornal em 19 de Setembro de 2007 e, mais tarde, em 16 de Julho de 2008.

Aqui estou Sr. Renato, em pé, neste rico areal em frente à sua casa, olho para aquele célebre recanto que ninguém teve vontade de lhe dar um arranjo digno desta rica zona balnear que tanto amavas e nunca chegarás a ver concluído, devido ao teu falecimento, em 26 de Fevereiro deste ano. Desculpa!

Ainda acredito senhor Renato que aquele recanto vai ter solução. A nossa Presidente de Câmara, como política que é, um dia destes afirmava, “Temos de prometer e cumprir.” É verdade que não houve promessa do arranjo, mas houve promessa que o assunto merecia o devido acompanhamento. Prometo que, aquando da sua conclusão, vou lá e rezo uma Avé Maria pela sua alma. Que Deus o tenha!

Autor: Carlos A. C. César

in Correio dos Açores de 27/4/2009

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